Resumo
A solidariedade entre grupos que enfrentam marginalização social — a solidariedade baseada no estigma — é essencial para sobreviver aos danos associados a regimes etnonacionalistas e autocráticos. O que acontece quando as expectativas de solidariedade baseada no estigma são violadas? Dois estudos (N1 = 945, N2 = 1116) examinaram essa questão no contexto das eleições presidenciais de 2024 nos EUA. Especificamente, mulheres brancas (E1 e E2) e negras (E2) que apoiaram Kamala Harris na eleição indicaram o quanto se sentiam traídas pelo comportamento de voto anti-Harris/pró-Trump de membros de outros grupos marginalizados (isto é, árabes-americanos, homens latinos) e/ou de membros de um grupo privilegiado (isto é, homens brancos). Em ambos os estudos, as mulheres brancas revelaram um padrão de traição refletindo laços relacionais: maior traição por parte dos homens brancos do que dos árabes-americanos/latinos. As mulheres negras revelaram um padrão de traição refletindo expectativas de solidariedade baseada no estigma: maior traição por parte dos latinos em comparação com os homens brancos. A traição, por sua vez, correlacionou-se com a confiança e, em certa medida, com as intenções futuras de solidariedade em relação ao exogrupo “traidor”. Em conjunto, os achados sugerem a necessidade de considerar o surgimento e as potenciais consequências da traição da solidariedade baseada no estigma para a promessa de alianças políticas intergrupais capazes de desafiar a injustiça social.Principais Conclusões
- No Estudo 1 (N=945 mulheres brancas eleitoras de Harris), as participantes relataram mais traição caso Trump vencesse em comparação com Harris (p < .001, η²ₚ = .16). Contrariamente às expectativas pré-registradas, elas se sentiram mais traídas pelos homens brancos do que pelos árabes-americanos (p < .001, η²ₚ = .11), embora o comportamento anti-Harris dos árabes-americanos fosse mais surpreendente (p < .001, η²ₚ = .13).
- O Estudo 2 (N=1.116; mulheres brancas e negras eleitoras de Harris) revelou um padrão cruzado de traição. As mulheres brancas se sentiram mais traídas pelos homens brancos do que pelos homens latinos (p < .001, d = -0.36), enquanto as mulheres negras se sentiram mais traídas pelos homens latinos do que pelos homens brancos (p < .001, d = 0.90). Entre os grupos, o voto pró-Trump dos homens latinos foi muito mais surpreendente do que o dos homens brancos (p < .001, η²ₚ = .65).
- A traição esteve associada à redução da confiança e da cooperação. No Estudo 1, a traição correlacionou-se com menor confiança (r= -.34, p < .001) e menores intenções individuais de solidariedade (r= -.35, p < .001), e modestamente com o apoio à vigilância prejudicial direcionada a árabes-americanos (r= .11, p = .013). No Estudo 2, as participantes endossaram mais solidariedade coletiva com os homens latinos do que com os homens brancos de forma geral (p < .001, η²ₚ = .04), mas demonstraram a menor disposição para se opor às deportações em massa em relação a outras políticas prejudiciais (p < .001, η²ₚ = .19).


















